quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Outro blog

Esse blog ganhou concorrência e a culpa é minha mesmo. Comecei a escrever um blog sobre tradução e interculturalidade, junto com o André de Paula, amigo e colega tradutor. Agora ficou difícil arrumar tempo e assunto para escrever aqui com mais frequência.

Para quem estiver gostando da leitura, fica a dica. Se você chegar aqui e não encontrar nada de novo, passe lá no outro blog. Bem provável que ele tenha novidades.

domingo, 13 de setembro de 2009

Fala, boiola!

A origem deste artigo foi ter conhecido o Martin, um bailarino berlinense que samba como ninguém e que, embora ão fale muito português, aprendeu algumas expressões com uma pronúncia perfeita. A palavra predileta do Martin é boiola. Diz ele que o som dessa palavra é cem por cento brasileiro e que uma palavra com tantas vogais seria impossível em alemão.

De fato, quem já se arriscou a aprender alemão um dia sabe como nós, brasileiros, sofremos com a quantidade de consoantes reunidas em uma só palavra. Uma língua que chama sexo de
Geschlecht mais parece uma brincadeira de mau gosto. E ainda estamos com sorte. Há quem diga que tcheco e húngaro são muito piores. Acredito, pois só alguns sobrenomes já são um espanto - tente dizer Strzybny.

Mas alguém já parou para pensar no desespero de um alemão cercado pela abundância de nossas vogais? A tortura começa já na primeira lição: Meu nome é Hans, sou
alemão. Em vez de apenas duas vogais em deutsch, o pobre Hans agora tem que se degladiar com um ataque de vogais na proporsão inversa. Como se isso não bastasse, elas ainda vêm armadas de um ditongo nasal que, a partir de agora, vai persegui-lo pelo resto da vida, sempre que ele disser que é alemáo, que vai viajar para Sáo Paulo, ou quando pedir mais um páozinio no almoço feito pela máe da sua namorada.

Mas há os que acabam gostando justamente desse desperdício de vogais e saem por aí colecionando palavras favoritas. Lembro de um aluno que um dia descobriu a palavra
auréola e passou a inventar maneiras de usá-la nas frases, o que produziu pérolas como "a auréola dos seus óculos é muito bonita".

O marido de uma conhecida cismou que o filho deveria receber o nome "melódico" do avô de sua mulher:
Coriolano. Foi um sufoco convencê-lo do contrário.

E tem o Martin, que não perde uma oportunidade de cumprimentar os outros com um sonoro
"E aí, beleza?" ou com a sua preferida: Fala, boiola!

A propósito, este artigo foi publicado no novo blog que estou escrevendo com o André de Paula, amigo e tradutor. O blog se chama Tradução e interculturalidade e ficaríamos contentes se você nos visitar e deixar lá seu comentário.

sábado, 22 de agosto de 2009

Sommerkino

O verão na Alemanha dura pouco. Quem vive nos trópicos não entende bem a mania alemã de fazer tudo lá fora, im Freien, tão logo os primeiros raios de um sol mais quentinho aparecem. Não importa se a sua cerveja esquenta, se o sorvete derrete mais depressa, se você esqueceu os óculos escuros em casa, se o suor gruda a blusa nas costas, ou se as vespas não deixam você dar uma garfada sem antes passar pelo vexame de gestos desesperados e gritinhos ridículos. O negócio é sentar lá fora e aproveitar o sol enquanto ele existe.


Isso tudo causa um stress danado. Você às vezes está coberto de trabalho e fica vendo o céu azul pela janela, se sentindo culpado por não estar aproveitando, mas sabendo que a culpa vai continuar lá se você resolver sair e deixar o trabalho para mais tarde.


Mas existe uma coisa para recompensar as pobres almas trabalhadoras que passam o dia no escritório e permitir que também aproveitem o verão: o Sommerkino – ou, em bom alemão, Open Air Kino. São os cinemas ao ar livre, montados durante algumas semanas em praças ou outros espaços abertos. A programação geralmente tem de tudo, desde A Idade do gelo (Ice Age 3), até clássicos como Quanto mais quente melhor (Some like it hot). Mas o filme, na verdade, pouco importa. O que conta é o ambiente e o ritual. Geralmente, a entrada é a partir das 19 horas, quando o dia aqui ainda está claro. Dentro da área cercada, há quiosques com todo tipo de comida e bebida. Você procura um lugar para assistir ao filme depois, deixa o seu casaquinho para marcar a área e fica por ali bebericando, batendo papo, até o filme começar, lá pelas 21 horas, quando já está escurecendo.


Meu cineminha de verão preferido fica numa cidade próxima a Stuttgart, Ludwigsburg. Ele é organizado dentro de uma antiga caserna militar, a Karlskaserne, que hoje é um centro cultural. E ontem, pelo terceiro ano consecutivo, começou o Open Air em frente ao museu da Mercedes-Benz. O lugar é um pouco fora de mão, mas a arquitetura é genial e a programação vale a pena (vejam aqui). Na próxima sexta-feira, quem assistir ao filme Uma Noite no Museu 2 (Night at the Museum 2) vai poder ainda visitar depois o museu da Mercedes com uma lanterna na mão e fazer de conta que é o Ben Stiller. Ou simplesmente ficar lá fora, tomando sua cervejinha gelada, com a roupa sequinha e sem as vespas por perto, que a essa hora já foram dormir.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O Brasil nas bancas

A imagem do Brasil na imprensa alemã nem sempre é das melhores. Em geral, o que se são os clichês de praxeum país de proporções continentais, com um povo alegre e hospitaleiro que vive numa baderna generalizada esperando um futuro promissor que nunca chega.

De uns anos para , porém, há um novo Brasil nas bancas. O Brasil do BRIC, uma das promessas de salvação da economia mundial. Esse país frequenta os cadernos de economia, as revistas e jornais especializados, é citado como modelo e levado a sério.

O último exemplo desse interesse pelo que acontece além dos limites de Copacabana é a série especial do jornal Handelsblatt. Durante três semanas, foram publicados perfis variados de gente que vem atuando com sucesso na sociedade brasileira. Teve de tudo um pouco: Luiza Helena Trajano, da rede Magazine Luiza, José Sergio Gabrielli, da Petrobrás, os ministros Celso Amorim e Furlan, Roberto Setúbal, do Itaú, Paulo Adario, ativista do Greenpeace, Fred Curado, da Embraer, Eike Batista, o homem mais rico do Brasil, as histórias de sucesso do pequeno empresário brasileiro, Jaguaracy San Just, e do empresário alemão Stefan Schmersal, que em plena crise investe em uma nova fábrica, e até Carlinhos Brown foi retratado. A série fechou com uma entrevista com Caio Koch-Weser, ex-diretor do Banco Mundial e atual vice do Deutsche Bank, nascido no Brasil.

Para o leitor brasileiro, mais interessante até que ler as reportagens foi observar a reação dos leitores locais a esse lado do país ainda desconhecido por muitos. Para eles, foi uma surpresa, por exemplo, ver estampado no jornal o rosto de um homem que a maioria juraria ser a mais nova aquisição do time do Bayer de Munique e descobrir que esse Jaguaracy é um empresário que consegue, hoje, um faturamento anual de cerca de 500 mil euros. Ou conhecerDona Luiza”, uma mulher baixinha, risonha e um tanto rechonchuda que dirige uma rede de lojas com uma estratégia tão bem sucedida que virou objeto de estudos de consultorias como a Boston Consulting Group – afinal, o Brasil não é aquele país machista, onde as mulheres só cuidam da beleza?

Um dos aspectos positivos das reportagens foi apontar também os problemas que se enfrentam na tentativa de modernizar o país, mas sem cair na velha argumentação de que isso nunca vai mudar, pois corrupção e caos pertenceriam à cultura local. À parte de algumas alusões de praxe, como ao famoso “jeitinho” brasileiro, os artigos tentam corrigir esses mitos e apresentar um quadro mais complexo da realidade brasileira. Não é uma tarefa fácil, mas o jornal, na minha opinião, saiu-se bem bem. Para quem alemão, vale conferir.

domingo, 26 de abril de 2009

Café Deutschland

A edição desta semana do Zeit Magazin, o encarte do semanário Die Zeit, é dedicada à bebida preferida dos alemães. E quem pensou agora em cerveja, engana-se: a Alemanha é a terra do café. Um alemão consome, em média, cerca de 146 litros de café por ano, contra 112 de cerveja.

O encarte tem de tudo um pouco. Um ensaio sobre a nova mania dos alemães de trabalhar em público, com o notebook de um lado e o café do outro. Uma prova dos cafés servidos nos gabinetes de alguns políticos, de Angela Merkel, que prefere chá, ao líder do Partido da Esquerda, Oskar Lafontaine, que é amante de vinho. Entrevistas com dois tradicionais magnatas do café na Alemanha – 85% do mercado é dominado por apenas seis grandes produtores de café – e com o maitre do Café Einstein, um dos mais tradicionais de Berlim e ponto de encontro dos políticos na capital. Um artigo sobre as máquinas de café espresso como símbolo de status dos intelectuais. Um belíssimo ensaio fotográfico sobre o tema e um artigo que traduz a mensagem por trás do café que você pede ao garçom – capuccino, espresso, latte macchiato, café con leche, cada um revela um pouco de quem você é. Quem pede um espresso duplo, por exemplo, na verdade está dizendo: Eu pareço estar acordado. Mas por dentro estou morto de cansado. É que eu trabalho muito, muito mesmo, quase não durmo e tenho que estar sempre cem por cento disposto. Na verdade, eu precisava era de speed.