
Cada estacão de metrô em Stuttgart foi projetada com uma cor predominante diferente. A estação Feuersee é azul, o que faz pensar nas águas plácidas de um lago. Mas com esse nome?
Feuersee. Quando ouvi o nome pela primeira vez, imaginei um mar em chamas, o apocalipse, o inferno de Dante, ou, na melhor das hipóteses, um baita pôr do sol sobre ondas vermelhas. É a estação com o nome talvez mais poético nessa cidade. Feuer e See, duas palavras tão contraditórias, unidas por uma razão desconhecida. O ardor das chamas e a placidez do lago, a força do F no início e a preguiça da vogal no fim da palavra.
O lugar também não dá nenhum indício de fogo ardente, ao contrário. Uma igreja antiga em meio a um lago pacífico, cercado pelas árvores de uma espécie de parque, com bancos para se descansar e olhar os patos deslizando na superfície das águas turvas. A cor predominante ali é o verde das árvores e o tom das pedras na fachada da igreja e das casas antigas ao redor.
Mas a estação é azul. Pacífica como o lago, ela está sempre quase vazia. O único som aqui é dos passos das poucas pessoas que chegam para esperar o metrô ou que saltam dos trens.
A história por trás da palavra não tem nada dessas contempleções. Em tempos idos, quando as casas da cidade ainda eram construídas com muita madeira e palha para isolar os tetos, o lago foi criado para abastecer de água os carros dos bombeiros quando precisavam combater algum incêndio nos arredores. Essas águas tranquilas, onde os patos hoje enfiam as cabeças e as crianças manobram seus barquinhos com controle remoto, serviam para salvar vidas. Vendo os velhinhos que passeiam por ali com seus cachorrinhos e param para um café ou uma conversa com o vizinho, penso que elas talvez ainda o façam.